Ontem um senhor já beirando os 70 entrou no vagão do trem que eu estava, ele pedia esmola. Suas rugas pareciam brigar há anos por espaço em sua testa. Suas mãos calejadas, unhas sujas, cabelos sebosos. É entendível – eu pensei – dormir num chão gelado durante as quatro estações do ano, banhar por conta própria quando e onde puder, subir, descer escadas de estações sem expectativas de mudanças, e ter que fazer de um vagão o seu palco não é nada fácil. O senhor continuou pedindo esmolas para os passageiros.

Movia devagarzinho. Sua calça de moletom preta estava meio rasgada, manchada de barro e ao meu parecer, gotas de óleo em algumas partes. Aquelas manchas difíceis de sair. Sua blusa carregada de um odor misturado com anos de profunda solidão. Sua mochila, em pedaços; o Zíper nem fechava apropriadamente, encontrava-se quebrado e por algum motivo, haviam varias sacolas diferentes dentro da mochila. Até que uma mulher do meu lado se simpatizou com a causa e lhe deu algumas moedas.

Também havia um casal bem vestido a minha frente, já beiravam os 70 anos. O senhor vestia terno, sua gravata combinava com o tom do azul do paletó e um detalhe na camisa branca. Seu relógio, qual fizera uso várias vezes durante esse meu tempo de observação, parecia custar uma vida. Literalmente, pois era cheio de brilhantes e detalhes prateados, o brilho do vagão. Sua esposa vestia uma saia de seda, blazer de linho. Seus punhos expunham uma perfeita vitrine de jóias. Eles se entreolhavam como se aquele senhor, morador de rua, mais ou menos uns 10 anos mais velho, estivesse errado em pedir esmola. Talvez se sentiram intrusos num show qual seus valores não poderiam ajudar no parcelamento dos ingressos. Talvez se sentiram privilegiados demais para se quer doar um sorriso de canto para aquele pedinte. Talvez estavam apenas tendo um dia ruim.

Nessa mesma parcela de tempo, um homem vestido de mulher sentou-se ao meu lado. Não era época de carnaval. Ele estava muito perfumado. Cabelos longos, lisos e grisalhos. Tinha um ar de responsável.

Eu, continuava dividida entre leituras. Ele também, imerso na literatura que seus dedos apalpavam. Seus olhos pareciam saborear um grande e delicioso cardápio de palavras daquele livro.

Até que nessas oscilações filosóficas e temporais percebo que minha minha perna direita encostou e acabou escorando-se na sua. Lentamente a removi, um pouco sem jeito, sabia que tinha sido o cansaço do meu corpo que, de forma natural, encontrou um ponto de descanso. Deixando sua interessante leitura por um segundo, ele solta um sorriso para mim, aqueles de agradecimento pelo respeito alheio. Sorri de volta pensando ‘’Se todos os homens fossem assim!’’ Refletindo que outros homens quando sentam abrem as pernas como se suas anatomias humanas fossem iguais a de um sapo. Bem arreganhadas, importunando a vida alheia.

O senhor necessitado, passando a minha frente, deixou um sorriso de canto pelas moedas recebidas. Deu para ver seus dentes amarelados refletindo gratidão.

Uns lutam contra a fome.

Outros contra status.

Outros contra espaço.

Eu, contra a rotina.

Observações, Ticiele de Camargo 2019©️

Mais Amor Por Favor Lisboa 2018 + Love Please. TC©️ Lisbon, 2018.

Não deu tempo de apreciar a merenda. Não deu tempo de colocar o papo em dia. Não deu tempo de preencher a lista de chamadas com todos os alunos presentes. Não deu tempo de correr no pátio fazendo gracinhas. Não deu tempo de ir ao banheiro ler os comentários em caneta preta nas portas e paredes. Não deu tempo de fazer trabalho em grupo. Ou individual. Nao deu tempo de entregar trabalhos. Não deu tempo de pedir a tia da cozinha por mais um pedaço de pão. Não deu tempo de se esconder da inspetora porque dessa vez não deu tempo para aprontar. Não deu tempo para dar motivos. Mas teve motivo para se esconder. Só que não deu tempo. Não deu tempo de questionar. Não deu tempo de lutar pela injustiça. Não deu tempo de formar razões ou explicações que justificassem a partida de cada um. Não deu tempo para se despedir. Não deu tempo de trocar aquele aperto de mão entre a molecada, aquela troca de bilhetes ou mensagens entre as meninas. Não deu tempo de agradecer ao Eterno pelos anos vividos. Não deu tempo de pensar no futuro. No momento. Não deu tempo de abraçar os de casa. Não deu tempo de olhar nos olhos e liberar o amor. Não deu tempo. Mas lá na eternidade, o tempo sobra. Sobra tempo para recebê-los. Abraçá-los e aceitá-los do jeitinho que eram.

Meus sinceros e profundos sentimentos a todos os alunos, pais e educadores da cidade de Suzano. 💔😭🙏🏼

There was no time to enjoy lunch during break. There was no time to catch up. There was no time to fill out the register with all the pupils. There was no time to run around the playground, as every student does, for fun. There was no time to go to the bathroom to read in black pen the comments on the doors and walls. There was no time to do group work or on your own. There was no time to hand in their homework. There was no time to ask the kitchen assistant for more bread. There was no time to hide from the inspector because they didn’t it mess up this time. For there was no time to give reasons. But there were reasons to run away. But not enough time. Not enough time to question. No time to fight for injustice. No time to look for explanations that would justify the departure of each of them. No time to say goodbye. No time for the last handshake between the boys, or sharing conversations with the girls. No time to thank Heaven for the years they lived. No time to think about the future. No time for the present. No time to hug the ones at home. No time to look into their eyes and express their love. Because there was no time. But in eternity, time is abundant. There will be plenty of time to welcome, embrace and accept them just as the way they were. Because now, they’ve graduated for LIFE.

My sincere and deep feelings to all the students, parents and educators from the city of Suzano. RIP.

💔🙏🏼 #tdc

Estava no trem voltando do trabalho. Sentei ao lado de dois rapazes, barbudos, talvez beirando a casa dos 40 já. Jaquetas de couro. Estilo esse caras “fortão” mesmo, como diz em algumas partes do Brasil, “cabra macho”. Até que, alguns segundos antes de colocar meus fones no ouvido, dei conta da conversa que muito me agradou. O barbudo do meu lado dizendo, de forma calma em sua voz grossa e baixa:

⁃ as coisas vão melhorar, cara, basta você olhar lá na frente, sabe?

disfarcei um pouco, olhei para o rosto do outro rapaz. Estava centrado, seus olhos cheios de lágrimas. Ele ouvia pacientemente as palavras do amigo que continuava:

⁃ tá vendo esse quadrado aqui? (e desenhou no ar um quadrado) … você está dentro dele e seus problemas também. Você precisa entender que ambos não poderão dividir esse espaço pra sempre. Abra um espaço (no quadrado, desfazendo de um dos lados do desenho no ar) e se livre do problema.

Do reflexo do vidro do trem, a minha frente, via o ouvinte apenas concordando com a cabeça. E então ficaram ambos em silêncio por um tempo. O que aconselhava passou a observar as suas unhas, meio sujas, e suas mãos com gotas de tinta branca. Mãos calejadas. E o ouvinte, apenas olhava para suas botas pretas, carregadas de barro.

Depois de algumas paradas e ainda cabisbaixo, o ouvinte se levantou, ajeitou a mochila nas costas, agradeceu com o olhar e desceu do trem.

Fiquei grata em não ter colocado os fones de ouvido. Me fez refletir:

Quantos e quantos homens, barbudos com pinta de fortão não passam por nós, disfarçados de coragem, força e determinação? Quantas e quantas mulheres não se cobrem de maquiagem e roupas do momento, mascarando suas dores e medos? Quantas e quantas vidas precisarão sofrer caladas para que finalmente despertemos e tenhamos sensibilidade? Temos que lutar por eles e com eles, para que não se desfaleçam, para que não desistam de suas vidas, de seus sonhos. Quantos silêncios submersos em angústias e gritos de desespero, almas feridas não se passam, TODOS os dias por nós?

Não é necessário termos um olhar clínico para sensibilizarmos com o sofrimento alheio. Só é necessário nos colocarmos no lugar do próximo e liberarmos uma palavra de ânimo. Podemos não saber exatamente o tamanho da dor, do medo, do trauma daqueles que pisam por onde pisamos. Podemos não conhecer as causas. Mas conhecemos a bondade, o amor e esses são maiores para vencer o mal. E somos capazes de levantar pessoas com palavras e atitudes que aliviam. Abraços que renovam e conselhos que iluminam.

Como o rapaz cabisbaixo precisava de uma ajuda, seu companheiro se sensibilizou. E de forma simples, o ajudou a terminar o seu dia com mais ânimo. Talvez o dia não terminasse assim para ele.

Nós somos a resposta e carregamos todos, a imensa responsabilidade de amarmos o próximo como nos amamos. É desafiante, triste e fácil de acreditar. Mas não temos mais tempo a perder. Ou então vidas se perderão. Nós precisamos agir.

❤️🙏🏼 😇

Ticiele de Camargo ©️ 2019.

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🇬🇧 🇧🇷 🤝 é em tempos de guerra. De luto. De angústia. De caos… que se faz um irmão.”

No link, https://www.facebook.com/151274568227715/posts/2239467532741731/
temos acesso a mensagem oficial da Rainha Elizabeth ao BRASIL.

É uma mensagem simples e partilho justamente por carregar vínculos de ambos lados culturais (Brasil e Inglaterra).

Ao acompanhar o desenrolar da nossa triste situação em Brumadinho, criei este texto em reflexão, para análise da alma e mente:

A mensagem da Rainha Elizabeth é direcionada ao nosso novo eleito presidente, Jair Bolsonaro. Porém, interpreto essa mensagem de solidariedade diretamente para o Brasil. Sim. Essa dor é coletiva. A dor de Brumadinho representa os de fora, os de dentro. Os que não nasceram. Os que iam nascer. Os que estavam crescendo em vida. Os sonhos soterrados. As conquistas esquecidas. O último abraço. A última mensagem de texto. A última ligação. O último piscar de olhos. A última brincadeira. A última refeição. A última e desesperada tentativa pra pegar um fôlego, dos que foram sem saber que se foram e porquê se foram.

Absolutamente nada trará de volta TUDO que se foi, e TODOS que ali habitavam. As histórias que ali existiam, que de forma cruel e inesperada, se findaram.

Ninguém merece tamanho sofrimento.

Mas que possamos nesse momento, reconhecer que não somos melhores que ninguém. O momento nos chama para o pó. Para o chão. Lama. Barro. Tudo que ali existia tornou-se uma mistura só. O momento nos convida a soterrarmos nosso ego, achismo, esse peso e rancor, essa necessidade de brigar de forma indireta apontando escolhas políticas, condenando pessoas como se fossemos juízes. O momento nos chama a descer ao nível mais baixo da nossa capacidade humana: nos colocarmos no lugar daqueles que se foram. Dos que sobreviveram – o que farão para retomar suas vidas? O momento nos chama como UM POVO. Assim como o sofrimento que inundou aquele lugar, tudo se tornou UMA coisa só.

E aceitando esse convite, essa chamada, essa proposta humana, provaremos de forma nobre, que o mínimo é o máximo perante os que choram. E seremos nobres diante do Justo.

Que o sofrimento alheio seja o nosso sofrimento, afinal, estamos todos sujeitos a fins como este. E não somos melhores por vivermos HOJE ou, pela posição social que vivemos. Ou pela ideologia política que seguimos e muito menos por vivermos em lugares geograficamente distantes. Estamos todos sujeitos à tribulações. Perdas irreparáveis.

É um paralelo complexo e desafiante de se pensar. Estamos acostumados a tocar as nossas vidas, viver no nosso conforto. Contar com nossos planos. Seguir nossas ideologias. Andar com quem escolhemos. Comer o que nos agrada. Vestir o que nos “representa”. Nos tornamos nossos próprios deuses aqui na terra. Condenamos. Fazemos descaso. Debatemos com muita força e quando vencemos com a última palavra, nos sentimos maravilhosamente bem. É preocupante. O nosso ego tem nos cegado de forma desumana. Perdemos nossa essência, esquecemos que viemos do pó.

Mas na vida (e em vida), devemos aprender que o crescimento não vem de cima, e sim de baixo. É preciso se diminuir para crescer.

Shalom a todos. Orem por Brumadinho. Pelo Brasil. Pelo mundo. Precisamos de Paz e sabemos onde encontrá-la.

Ticiele de Camargo ©️ 1 Fevereiro 2019.

#prayforbrumadinho #onelove #humanity #brasil #brazilianliterature #tdc

A hundred years of Owen 💙

“Owen was put in charge of The Hydra, the hospital’s literary magazine, and encouraged to write poetry. But his surroundings also furnished Owen with something more valuable: a space to process the suffering he had seen and was seeing around him. This emotion, recollected in tranquillity, is crystallised in the subject matter of some of his best known poems – characterised by an evocation of the sick, the wounded and the dying. His manuscripts reflect that state of mind. Composition for Owen was neither frenzied nor easy, but rather it involved a steady process of probing words and phrases from which he manufactured the emotional intensity in his poetry.”

Very interesting and inspiring article, Owen shows us that writing helps overcoming traumas and awful memories. Furthermore, by expressing our pains we are able to discover and improve our talent, such as writing. 📝

http://theconversation.com/wilfred-owen-100-years-on-poet-gave-voice-to-a-generation-of-doomed-youth-106014