A rainha Vitória 👒 ðŸ˜†

Existem muitas histórias de rainhas que passaram pela terra deixando legados incomparáveis. Umas foram casadas com reis de outros nacionalidades, outras participaram de guerras, outras foram estéril, outras, estavam mais perdidas que bandido em tiroteio. Não sei qual rainha exatamente vem a sua mente ao ler isso mas, certamente não será a mesma que vi com meus próprios olhos.

Fui chamada a trabalho para enfermaria de um certo hospital (já tem um tempo) para dar assistência a uma velha senhora, chamada Clara.

Clara tinha 91 anos. Não apresentava nenhum problema de saúde. Mas havia, infelizmente, caído em sua casa (ao descer as escadas de sua casa, esqueceu de segurar no corrimão). A queda acabou comprometendo suas cambitinhas. Apesar de sua idade já avançada, Clara demonstrava muita vontade de viver. E por incrível que pareça, as pernas machucadas não a incomodavam em nada.

Mas algo diferente passou a incomodar. Ao chegar no hospital para ter seus primeiros curativos, Clara se deu conta de algumas coisinha: o seu chapéu vermelho não estava mais nas suas coisas e seu espelho de bolsa também não. Isso trouxe grande insegurança a ela e tumulto a equipe de enfermeiros pois, Clara, insinuou que um deles havia pego seus preciosos pertences.

Até que eu cheguei para trabalhar e a conheci. Ao perceber que falava português e não inglês como todos no Hospital, Clara começou a desabafar de forma impaciente e enfática comigo.

– Não sei que raios meu chapéu e meu espelho de bolsa sumiram! Deve ter sido um deles que pegou, pois! Podes perguntar a eles onde está o meu chapéu e o meu espelho de bolsa? Eu já perguntei e eles dizem que não sabem! Mas sei que está lá, está lá nas coisas deles!

Enfatizei que poderia perguntar porém não dei muito espaço para conversar sobre aquilo pois meu tempo ali era curto.

Fiz o meu trabalho naquele dia e voltei na semana seguinte.

Ao entrar no departamento ao qual a dona Clara estava, passei por um longo e gelado corredor de paredes verdes claras. Avistei de longe algo bem atípico, qual me chamou a atenção: estava ela de costas, sentada na cadeira, em frente a porta do seu quarto com um chapéu gigante alto e branco em sua cabeça. Falava sozinha de forma impaciente, dando ordens aos enfermeiros em Português.

Ao notar o meu leve sorriso no rosto, a enfermeira me encontrou no meio do corredor e disse de forma bem entusiasmada:

– Oi! Que bom que você voltou pra dar assistência para a Rainha Vitória!

Eu respondi rindo:

– Rainha Vitória?!

– Sim, desde semana passada ela insiste dizer que pegamos o chapéu dela. Mas o próprio filho já disse que está em sua casa. Então como uma outra paciente havia esquecido aqui, resolvemos dar a ela esse chapéu. O único porém é que agora, ela se parece com a Rainha Vitória! Ha! Ha! Ha!

Achei cômico e me acheguei a dona Clara. Toquei no seu ombro e a cumprimentei.

РQue chap̩u bonito, hein, dona Clara!

РTais a ver, esse ̩ o meu chap̩u que eles haviam pegado, que raios os partam pois pegaram e esconderam de mim. Tais a ver, esse meu chap̩u ̩ muito bonito, olha! Pegou no chap̩u, se sentindo muito feliz e sorriu para mim.

Os enfermeiros riam de longe ao notar a satisfação da dona Clara. Eu me divertia com sua companhia, dona Clara já havia vivido de tudo, tudo o que eu nem imaginaria viver, estar ali era um presente para o meu dia.

Com isso, pude ver que as vezes, a dor do esquecimento traz novas oportunidades. Essa que comprometeu as pernas da Dona Clara por um mês mas que felizmente, sararam.

Essa que, apesar de muito vivida e irreversível (idade + esquecimento) foi tratada de forma leve e divertida, tirando risos de todos e inclusive da Dona Clara.

Que possamos ser criativos em meio as dores! E que possamos trazer luz e alegria em meio ao esquecimento!

Tenham uma ótima semana. ❤️

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